Associação de Tapeceiras de Lagoa do Carro

Antes mesmo de se tornar município (deixou de ser distrito de Carpina em 1991), Lagoa do Carro, Zona da Mata Norte do Estado, já tinha nos tapetes, pacientemente bordados à mão, uma expressão de sua gente. Uma ligação tão forte que assegurou à cidade o título de Terra do Tapete, redefinindo seu perfil econômico. Fundada por um grupo de mulheres em maio de 1988, a Associação das Tapeceiras de Lagoa do Carro foi protagonista de parte dessa história.

A tradição dos tapetes chegou ao município de Lagoa do Carro em 1975 através de Tereza Lira, artesã que acabara de se mudar para a cidade. Tapeceira experiente, ela já trabalhava com encomendas para empresas do segmento do Recife. Passou a técnica para quem quis aprender, assegurando tela e lã para que as novas bordadeiras tecessem os tapetes que comercializava. Em processo natural, as primeiras alunas repassaram o conhecimento adiante fazendo com que a atividade fosse fonte de renda para cerca de dois mil moradores, tanto da área urbana quanto da rural, homens e mulheres, que até então tinham na agricultura ou no corte da cana de açúcar a única forma de sobrevivência.

A Associação de Tapeceiras de Lagoa do Carro (Astalc) surge em dado momento em que as artesãs buscavam pagamento mais justo pelo trabalho e mercado próprio. “A Associação veio para emponderar as mulheres, assegurar o contato direto com os compradores porque a produção dos tapetes era quase em sistema de escravidão. As mulheres ficavam dia e noite trabalhando e os valores pagos eram 10% do que recebem hoje”, assegura a presidente Risolange Rodrigues da Silva, que aprendeu a tecer aos sete anos de idade com um vizinho para ajudar no sustento da família. “Depois do corte da cana, a família se reunia para trabalhar nos tapetes. Essa é uma lembrança valiosa porque significa a história do povo. A tapeçaria deu nome à cidade; é bem imaterial de Lagoa do Carro”, avalia.

Uma das mais antigas tapeceiras do município, Maria de Lourdes dos Santos, 80 anos, dedicou metade de sua vida ao ofício. Criou e educou os 13 filhos a partir das tramas e não esquece os muitos dias que amanheceu ao lado deles e do marido para concluir as encomendas. “Chegamos a fazer tapetes de 40 metros e isso dava uns bons quilômetros de cadeiras enfileiradas em frente de casa”, recorda a mestra. Marli Ribeiro de Lemos, 65 anos, 24 deles bordando, aprendeu com Tereza Lira. “Assim como para muitos moradores daqui, a tapeçaria tem um valor muito grande na minha vida. Eu me entrego de corpo e alma à ela e apesar de ser um trabalho que exige muito da pessoa, não me vejo longe dele”.

Os tapetes criados individualmente ou de forma coletiva em Lagoa do Carro são conhecidos mundialmente. O maior mercado consumidor continua a ser Pernambuco, mas eles encontram clientela em importantes centros econômicos do país, como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, assim como em países europeus, em destaque para Portugal e Holanda. Aos temas clássicos – florais, colonial e geométrico -, as tapeceiras de Lagoa do Carro incorporaram outros motivos, como o regional, destacando nos desenhos animais e flora que fazem parte da realidade em comum. Orgulham-se de terem criado um ponto “genuinamente pernambucano”, o jasmim, aplicado em tapetes, almofadas, passadeiras, quadros, pesos de porta, entre tantos outros produtos.

Mas apesar de toda história de desafios, superações e amor ao trabalho que une a vida das mulheres nessas últimas décadas na cidade, Risolange Rodrigues acredita que exista um grande desafio pela frente: a formação de futuras gerações de tapeceiras. “Amamos o que fazemos porque aprendemos desde pequenas, mas os jovens de hoje não se sentem estimulados a conhecer e trabalhar com isso, o que é um grande desafio porque a tapeçaria tem um valor imemorial. Precisamos estruturar um caminho, com políticas de valorização da tapeçaria, para que tudo isso não se perca”, afirma.

Contatos:

Endereço – Associação de Tapeceiras de Lagoa do Carro: Km 8 da Rodovia PE 90, Lagoa do Carro.

Telefone – 81. 3621 8162.

Texto: Roziane Fernandes l Fotos e vídeo: César de Almeida

Fonte: Artesanato de Pernambuco

2018-07-10T00:01:22+00:00 julho 9th, 2018|Notícia em Destaque|0 Comentários

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