Gildo Siqueira – Vida e morte de Luiz Gonzaga (O Rei do Baião)

O Nordeste do Brasil

Está em desolação

O seu povo está triste

Com grande lamentação

Tristeza que se propaga

Por perde Luiz Gonzaga

O nosso rei do baião.

 

O sertão de Pernambuco

Que por ele foi cantado

Hoje se encontra em luto

Por perder seu filho amado

Luiz Gonzaga tombou

Mas ao mundo apresentou

O xote, o baião e o xaxado.

 

A pequena cidade de Exu

Foi o berço do rei do baião

Que recebia sempre com festa

O seu querido Gonzagão

Mas para seu total desgosto

Recebeu no mês de agosto

O seu corpo em um caixão.

 

Gonzaga representava

O nosso sertão brasileiro

Com seu pique e sua voz

E seu jeito de cangaceiro

Revelou todo sertão

E demonstrou no baião

O aboio do vaqueiro.

 

De santana e Janúario

Nasceu então o Luiz

No município de Exu

O seu registro que diz

Mas muito jovem afinal

Largou a terra natal

E foi para o sul do país.

 

Em um caminhão pau de arara

Foi para o Rio de Janeiro

Chegou até a se alistar

No exército brasileiro

Baixou praça depois saiu

Pois o coração pediu

Para ser um sanfoneiro.

 

Antes disso lá no Rio

A vida era muito dura

Andando pela Tijuca

Realengo e Cascadura

A procura de qualquer galho

Pois pra ele algum trabalho

Seria uma boa aventura.

 

Quando depois descobriu

Que tinha uma voz excelente

Começou cantando em boates

E agradou a muita gente

Por uns ele era vaiado

Por outros era criticado

Mas ia tocando em frente.

 

Depois pegou a cantar

Para animar o São João

Tocava marchas juninas

Nos forrós da região

Foi fazendo sucesso

Conseguindo seu ingresso

Para ser rei do baião.

 

Comprou uma sanfona novo

Também um chapéu de couro

Fez do baião sua vida

A sanfona era seu tesouro

E o Nordeste o consagrou

E também o denominou

“O Luiz Gonzaga de ouro”.

 

Arrumou um zabumbeiro

Que dançava bem xaxado

Depois um triangulista

Que só vivia ao seu lado

Era o trio que no sertão

Ajuntava uma multidão

No local que era chegado.

 

Tinha seus compositores

Só de boa qualidade

Tais como o Zé Dantas

O rei da popularidade

Além de Humberto Teixeira

Compositor de primeira

E amigo sem falsidade.

 

Primeiro veio Asa Branca

Assum Preto e Juazeiro

Sábia e Vem Morena

Pajeú e Boiadeiro

Paulo Afonso e outros mais

Os sucessos imortais

Neste País inteiro.

 

Era feliz com o baião

Que por ele foi criado

Cantou e dançou também

O xote, o maxixi e o xaxado

E o seu sucesso inigualável

Sempre muito invejável

No tempo do seu reinado.

 

Foi grande a quantidade

Dos discos que ele gravou

E a sua fama admirável

Pelo nosso país se espalhou

E sua voz rompeu os véus

Foi centenas de troféus

Que o nosso rei conquistou.

 

Zé Gonzaga o seu irmão

Que era um bom sanfoneiro

Percebendo a fama do rei

Se espalhar no Brasil inteiro

Começou também a gravar

Para seu mano acompanhar

E seguir o mesmo roteiro.

 

No ano de quarenta e oito

Gonzaga sofreu um acidente

Estava indo a uma cidade

E o carro virou de repente

Rodou para fora da pista

Deixando o nosso artista

Acidentado e doente.

 

E no desastre Catomílio

O zabumbeiro de fama

Caiu para fora do carro

Em uma poça de lama

E quase perdeu a vista

Já Zezinho o triangulista

Ficou dez dias de cama.

 

Ainda bem que Gonzaga

depois se recuperou

O seu belo automóvel

Na virada se acabou

A zabumba amassou-se

A sanfona furou-se

Mas Gonzaga escapou.

 

Zé Gonzaga neste tempo

Compôs um lindo baião

Que narrava o acidente

Do seu amado irmão

A letra teve progresso

Fazendo o maior sucesso

Ouvindo por toda nação.

 

E lá se foi o Luiz

Cantando suas canções

Fez ele muitos sucessos

Que atraiu multidões

Sendo muito apreciado

Cantando o nordeste amado

Com seus lindos baiões.

 

Em Gonzaga outros cantores

Encontraram inspirações

Alguns gravaram músicas

Inspiradas nos baiões

Até Benito de Paula

Dele recebeu aula

Pra fazer suas canções.

 

Também gravou com cantores

Mostrando muita humildade

Deu a mão a seus colegas

Plantando só a bondade

Foi isso que praticou

E quando se foi deixou

Uma enorme saudade.

 

Como ninguém nesse mundo

Vai ficar pra semente

Com Gonzaga, o rei do baião

Não seria diferente

Por mais remédio que tomasse

Não teve quem evitasse

De cair muito doente.

 

Os médicos disseram

Que a doença era forte

Um reumatismo feroz

Que cortou sua sorte

Sua vida se esvaindo

E o mal o conduzindo

Para seu leito de morte.

 

Além disso ele sofria

De ataques do coração

Sofria dores horríveis

Que cortavam a pulsação

Chegou a ser internado

Para ser medicado

Com mais acomodação.

 

Ainda assim bem doente

Foi para um show conduzido

Em plena praça pública

Foi ele muito aplaudido

Mas cantou muito cansado

Depois novamente internado

Por se encontra abatido.

 

No hospital foi visitado

Por seus amigos cantores

Por pessoas da família

E seus admiradores

Parecia uma despedida

E a sua esposa querida

Acompanhava suas dores.

 

E no dia dois de agosto

No final da madrugada

O coração desse rei

Não resistia a nada

Parou ele de bater

Chegou então a falecer

Ao lado da esposa amada.

 

A notícia se espalhou

No meio da multidão

E logo veio a imprensa

Do rádio e televisão

E todo o povo em geral

Foram para o hospital

Pra ver o rei do baião.

 

Em Recife na assembleia

O corpo dele foi velado

Depois em um avião

Pra Juazeiro foi levado

E conforme sua vontade

Na matriz da cidade

Pelo padre encomendado.

 

E de Juazeiro a Exu

Seguiu no mesmo avião

Em Exu era esperado

Por enorme multidão

Junto aos parentes seus

Dando o último adeus

A Gonzaga rei do baião.

 

Recebeu muitas homenagens

Reconhecido por seu reinado

Depois das cerimônias

Pelo povo foi levado

Ao cemitério afinal

Em sua terra natal

Ele foi sepultado.

 

Partiu Luiz pra eternidade

Deixando aqui seu legado

Mas ninguém vai esquecer

O rei do baião adorado

Ele fez acontecer

E o mundo conhecer

O xote, o baião e o xaxado.

 

 

Dados sobre o autor:

Gildo Siqueira de Miranda Filho nasceu na pequena cidade de Taquaritinga do norte, no ano de 1969. Estudou na Escola Estadual Severino Cordeiro de Arruda cursando o ensino fundamental e médio. Cursou enfermagem na União dos artistas e profissionais de caruaru exercendo a função por menos de dois anos no Hospital Severino Pereira da Silva Também em Taquaritinga.

Sua paixão por viagens o fez um mascate o levando a conhecer os sertões nordestinos onde conheceu os cantores de viola e a literatura de cordel. No ano de 1989 conheceu o Movimento internacional para a consciência de Krsna (ISKCON) onde estudou profundamente a literatura védica sendo iniciado na ordem monástica de onde se inspirou para compor algumas de suas obras literárias. Gildo Siqueira é membro da Academia Caruaruense de Literatura de Cordel, ocupando a cadeia nº 05. Atualmente reside em Taquaritinga com seus dois filhos e sua esposa no seio de sua família que considera primordial.

 

 

 

 

2018-11-06T13:20:02+00:00 novembro 4th, 2018|Cordel|0 Comentários

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