História de Antônio Silvino o negro Currupião

Agora caros leitores

Peço um pouco de atenção

Que aprendi versejar

Um caso de valentão

Falar de Antônio Silvino

Com o negro Currupião

 

O povo deve saber

Que foi Antônio Silvino

Valente mais generoso

Embora que assassino

Tinha boas qualidades

Desde o tempo de menino

 

Antônio Silvino foi

Cangaceiro do sertão

Nunca agravou a pobreza

Antes dava proteção

Tinha orgulho em matar

Oficial em galão

 

Um Antônio Silvino

No sertão alagoano

Junto com vinte capangas

Em uma véspera de ano

Foi cercado pelas forças

Ouve um combate tirano.

 

Foi 5 horas de fogo

No pé dum despenhadeiro

Do pessoal de Silvino

Não ficou um cangaceiro

Só pôde escapar

Por dentro do fumaceiro

 

Deixou as capangas

E dali se escapuliu

Entrou por uma caatinga

Que nem um soldado viu

No rumo de Pernambuco

Sozinho se dirigiu

 

A noite ele foi dormir

Numa mata diferente

Quando foi as 11 horas

Cais chuva de corrente

Pelo abrir do relâmpago

Viu vulto horrivelmente

 

Quando o relâmpago abria

Silvino ia enxergando

Aquelas caveiras velhas

Na frente dele pulando

Os dentes secos pra fora

Dando gemido e gritando

 

Aquelas caveiras velhas

Em voz alta a gritar

Silvino as nossas vidas

Você hoje tem que dar

Nossas almas hoje cedo

Antes do tempo chegar

 

Silvino ficou com raiva

Manobrou o mosquetão

Deu a descarga completa

Que trocou com um trovão

Foi horrenda a bagaceira

Ossos caindo no chão

 

Disse ele só assim

Acabava este alarido

Nunca aguentei ninguém

Gritar no meu pé do ouvido

Se isso não for o inferno

já vi canto parecido

 

Bem não findou a palavra

Logo lhe surgiu de frente

1 homem babando em sangue

Com a farda de tenente

Disse: Silvino comigo

O negócio é diferente

 

Silvino lhe respondeu

Toda parada eu resolvo

Que irás vingar a morte

Que fiz em ti e teu povo

Se vier me aborrecer

Torno a matá-lo de novo

 

Silvino prantou no cabra

O coice de seu mosquetão

Saiu faísca de fogo

Que clareou pelo chão

Uma voz gritou de lado

Ou cabra doido do cão

 

Ai ficou tudo calmo

Ele ouviu uma risada

Uma voz que lhe dizia

Ou brincadeira animada

Silvino Disse: Seu peste

Eu ainda não vi nada

 

Ai a lua saiu

E o mato clareou

Silvino pegou as armas

E dali se retirou

E quando chegou no campo

O dia logo raiou

 

As 7 horas do dia

Ele saiu num caminho

Conseguiu sua viagem

Naquela estrada sozinho

Neste dia se encontrou-se

Com Vicente Cacauzinho

 

Este tal de Cacazinho

Que era um cabra ferino

E de 25 mortes

Ele já era assassino

Pediu licença ao governo

para matar Antônio Silvino

 

O governo garantiu

De lhe dar muito dinheiro

Ainda mais um documento

De cidadão brasileiro

No dia em que ele matasse

O Silvino cangaceiro

 

Disse o governo: Vicente

Precisas teres cuidado

Quem for brigar com Silvino

É triste seu resultado

Porque todos que tem ido

Não dão conta do recado

 

Cacauzinho depois disto

Muito tempo procurou

Silvino pelo sertão

3 meses e tanto andou

Quando menos esperava

Neste dia encontrou

 

Quando ele viu Silvino

Foi logo dizendo assim

Se és Antônio Silvino

Por favor não negue a mim

A tempo que o procuro

No sertão pra dar-te fim

 

Eu me chamo Cacauzinho

Cabra duro e cangaceiro

Sou mandado do governo

Ganhando muito dinheiro

Pra matar no sertão

O Silvino bandoleiro

 

Sou eu Antônio Silvino

Que tu dizes ser ruim

Eu sei que o governo paga

O homem pra dar-me fim

Agora eu acho custoso

Ganhar-te dinheiro assim

 

Para saberes meu nome

Não precisa tanto roubo

Sou eu Antônio Silvino

Agora bateu o jogo

Se és fogo do diabo

Eu sou diabo de fogo

 

Vicente afastou um pouco

Com o seu rifle ferino

Dizendo agora vou ver

De nós quem vence o destino

Conversar é roubo de tempo

Lá vai pitomba Silvino

 

Meteu o rifle no rosto

5 tiros disparou

Foi 5 balas perdidas

Ai Silvino gritou

Vicente as tuas balas

Não sei por onde passou

 

Silvino disse: Vicente

Perdesses todo o futuro

Agora meu mosquetão

Eu provo, sustento e juro

Na hora que puxou o dedo

É um buraco seguro

 

Homem que luta comigo

Só vem perder na questão

Segue para a sepultura

Por tanto agora negrão

Feche o folego aprume o corpo

Segure o bofe com a mão

 

Ai bateu-lhe o fuzil

Deu 5 tiros de fato

Vicente de 5 pulos

Ligeiro que só um gato

Perdestes as balas Salvino

Sou bom pra mais do contrato

 

Disse Silvino é exato

Para a lua não és mal

Mas como já começamos

Preciso ver o final

Na bala aprovaste bem

Quero ver o punhal

 

Pucharam pelo punhais

Como 2 touros zangados

Ferro ia ferro vinha

Eram 2 monstros danados

Arrancavam pau e pedras

Deixando os matos virados

 

Entre os dois ninguém sabia

Quem era mais forte nem fraco

Silvino tange o punhal

Vicente como macaco

Deu um pulo muito grande

Caiu dentro dum buraco

 

Caiu dentro do buraco

Ficou todo embaraçado

Pelos ramos de cipós

Que lhe fez atrapalhado

Silvino danou-se o ferro

Travessou de lado a lado

 

Acabou-se Cacauzinho

Nesta luta horrivelmente

Silvino olhou pra ele

E disse: É homem valente

Faz pena a gente matar

Um cabra como Vicente

 

Vicente eu não tenho culpa

De hoje aqui te matar

Foste tu mesmo o culpado

Vieste me insultar

Sem ter mínima precisão

Obrigou-me te matar

 

Depois que realizou-se

Esse combate tirano

Silvino seguiu viagem

Pra realizar seu plano

Já estava palmilhado

No solo Pernambucano

 

Quase que morre de sede

Atravessando um grutão

Numa estrada esquisita

Num existia um cristão

Viajando fadigado

Naquele vasto sertão

 

As 5 horas da tarde

Por dentro num baboleiro

Ele ao longe e enxergou

A casa de um fazendeiro

E o vulto de uma dona

Passeava no terreiro

 

Quando a mulher viu Silvino

De casa se aproximou

Ficou com bastante medo

Tratou de ocultar

Silvino chamou da porta

Mais ele não quis falar

 

Como chamou muitas vezes

A mulher lhe respondeu

Bastante subsaltada

Na porta lhe apareceu

Silvino lhe pediu água

Ela trouxe ele bebeu

 

Quedê o dono da casa

Silvino assim perguntou

Disse a mulher não está

A 3 dias viajou

Silvino pensou um pouco

E depois assim falou

 

A senhora não poderá

Dar-me hoje em hospedagem

Só para passar a noite

Porque ando de viajem

E pra ir diante

Não me acho com coragem

 

A mulher quis lhe falar

Mas imaginou também

Que negando-lhe a dormida

Podia não se dar bem

Disse: O senhor se hospede

Dentro daquele armazém

 

Por um pretinho empregado

Logo a mulher mandou ir

Levando a chave na mão

Para o armazém abrir

E disse: O senhor repare

Se serve para dormir

 

Silvino atou a sua rede

Mas antes de se deitar

Pediu a dona da casa

Pra ela lhe preparar

Qualquer comida que fosse

Que ele queria jantar

 

A senhora me prepare

Seja que comida for

Eu sou um homem sem luxo

De tudo conhecedor

Lhe pago e fico devendo

Este especial favor

 

A mulher fez a comida

Chamou ele pra jantar

Então logo o nome dele

Ela tentou perguntar

Silvino por esta forma

Começou a lhe contar

 

Me chamo Antônio Pinheiro

Azevedo de Aragão

A 5 dias viajou

Pelas zonas do sertão

Vou até a Petrolina

A casa de meu irmão

 

Pois quando vi o senhor

Chegando no meu terreiro

Fiquei com bastante medo

Cai em passo ligeiro

Devido seu armamento

Pensei ser um cangaceiro

 

E também fez relembrar

Lá de casa dos meus pais

Dum retrato de Silvino

Um cangaceiro aliás

Que com a sua presença

É parecido demais

 

Seu pai conhece esse homem

Ora desde de menino

Meu pai mora em paraíba

E se chama Generino

O guarda como relíquia

O retrato de Silvino

 

Dona eu sendo seu pai

Jogava ele no mato

Negócio com cangaceiro

Eu não acho ser exato

Pois meu pai por 2 mil contos

Não dá aquele retrato

 

Agora caros leitores

Vejam o que se passou

A mulher alegrezinha

Até muito conversou

Quando inesperadamente

Muito tristonha ficou

 

A mulher foi ao terreiro

Alguma coisa ajeitar

Lá encontrou-se com um vulto

Ficou sem poder falar

E quando entrou já foi

Chorando pra se acabar

 

Silvino ficou olhando

Aquele lamento seu

Sem saber o que fizesse

Depois sempre resolveu

Perguntou dizendo: dona

O que foi que aconteceu?

 

Disse a mulher: Meu senhor

Nessa mesma ocasião

Eu vi um vulto passando

Aqui detráz do oitão

Conheci perfeitamente

O negro Currupião

 

Este negro meu senhor

É perverso e muito ruim

E pra mais de 10 mil famílias

Ele aqui tem dado fim

Hoje com toda certeza

Quer vir agredir a mim

 

Eu que me acho sozinho

Óh meu Deus me defender

Se não dar-me a proteção

Meu resultado é morre

Silvino pensou consigo

Por esta maneira assim

 

Minha viagem é danada

Vai ser mal até o fim

Todo torpedo da peste

Só vem pra cima de mim

 

Silvino foi se deitar

Deixou a mulher chorando

Se balançava na rede

Um bom cigarro fumando

Quando logo viu um vulto

bater na porta chamando

 

Abra a porta dona branca

Quem chama é Currupião

E se não abrir a porta

Eu boto ela no chão

Quero chamar pra dormir

E uma ceia do capão

 

A mulher abriu a porta

Quase morta coitadinha

E o danado do negro

Entrou para a camarinha

E ordenou a mulher

Ir pegar uma galinha

 

O negro disse pra ela

Preste atenção no que digo

Se não trabalhar direito

Recebe grande castigo

E depois da ceia pronta

Vem aqui falar comigo

 

Saiu a pobre mulher

Em direção ao terreiro

Para pagar a galinha

Que estava no puleiro

Silvino se levantou

E foi para lá bem ligeiro

 

A mulher entrou na porta

Silvino lhe acompanhou

Quando nem ele esperava

Com ele se encontrou

A mulher quia se assustar

Silvino baixo falou

 

Doninha não se assuste

O caso eu vou resolver

Ponha a galinha no fogo

Mas antes dela ferver

Eu vou botar esse negro

A força bruta comer

 

A mulher disse: meu Deus

Jesus Cristo salvador

Peço que não faça isso

Por especial favou

Este negro é criminoso

Mata eu e o senhor

 

Senhora não tenha medo

Pois esse negro assassino

Precisa criar vergonha

Hoje vou dar-lhe um ensino

A senhora etá falando

É com Antônio Silvino

 

Sou eu Antônio Silvino

E não lhe peço segredo

Dei meu nome trocado

Quando cheguei logo cedo

Só não falei a verdade

Pra senhora não ter medo

 

A mulher ficou pensando

Sem aprumar o destino

Imaginava que o nego

Era perverso e assassino

Mas confiava bastante

Na presença de Salvino

 

Pois a galinha no fogo

Quando pegou a espuma

Foi avisou a Salvino

Que só fez se levantar

Chegou na porta do quarto

E começou a chamar

 

O negro deu um esturro

Que estremeceu o salão

Dizendo ainda mais esta

Quem é este bestalhão

Que está ai falando

Querendo ser valentão

 

Silvino disse: Negrinho

Nós temos que resolver

A galinha nem ferveu

mas eu tenho que fazer

Você comer ela crua

Ou  então tem que morrer

 

Desocupe a cama alheia

Negro covarde e cretino

Precisa criar vergonha

Hoje vou dar-lhe um ensino

E você está falando

É com Antônio Silvino

 

Disse o negro seu Silvino

Não precisa de embaraço

Por isso não há questão

Todo pedido eu lhe faço

Eu com a galinha toda

Não deixo nem um pedaço

 

Deu um sezão no negro

Começou logo a tremer

E sentou-se na cadeira

Danou a boca a comer

Não deixou nem um pedaço

Sem nada mais lhe dizer

 

Depois pegou a engulhar

E se torcer na cadeira

Silvino deu-lhe 3 baques

Disse: Não faça sujeira

Puxou-o pra fora e sangrou

E jogou na capoeira

 

Silvino disse: doninha

Acabou-se a confusão

Nunca mais tenha sombroso

Do preto Currupião

Silvino de madrugada

Seguiu sua direção.

 

FIM

 

 

 

História de Antônio Silvino e o negro Currupião, 

Autor: Francisco A. Martins  

 

2019-01-11T15:24:37+00:00 janeiro 12th, 2019|Cordel|0 Comentários

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