Numa noite de São João… – Onildo Pereira Santos

Noite de São João! Naqueles tempos, todos se recolhiam logo depois das vinte horas, pois era a hora de se iniciar a “guerra” dos Busca-pés

Havia muitos aficionados e cada um que exibisse os seus “bichos de fogo” de fabricação caseira.

Havia também a turma do contra, ou que não tinha condições de entrar na brincadeira e se contentava em apenas “provocar”.

“Quebrou”, “quebrou”, era só o que se ouvia… E lá vinha a resposta nas faíscas dos Busca-pés que eram atirados na direção dos provocadores. Eram correrias para todos os lados. Mas dentro de pouco estavam novamente todos juntos com novas provocações.

Os gritos de “quebrou”, “quebrou” feriam a vaidade dos “guerreiros”. E dezenas, centenas de Busca-pés cruzavam os ares iluminados a noite.

Também se ouvia aquela cantiga provocadora:

“Quebrou, quebrou

agora como que é

ou Zezinho ou Nequinho

acaba os Busca-pé”…

Os Busca-pezeiros já vinham prevenidos, tinha munição para a noite inteira.

dentre os “quebrou”, havia um caso curioso: era o de Solon. Permanecia ele, em pé, no batente da porta do hotel de Zuza, e a maioria dos Busca-pés era endereçada na sua direção, no intuito de desalojá-lo dali.

Firme, dentro do seu velho capote, ninguém conseguia arrancá-lo de lá.

Ao se aproximar o São João, os fabricantes caseiros de Busca-pés muniam-se dos apetrechos necessários: taboca, carrapateira seca, pilão, salitre, cordão e limalha. Entre eles havia fabricantes afamados. Seus Busca-pés nunca davam “gibu”, demoravam mais a queimar e o tiro final era mais seco e, o principal: eram muito mais reluzentes.

José Orobó era um dos bons fabricantes e naquele São João ia caprichar, ninguém ganharia dele em qualidade.

Encheria os Busca-pés de última hora. Queria ver a limalha resplandecer. Limalha usada dias antes, enferrujava e ao queimar saía avermelhada.

Desejava botar pra quebrar naquele ano. E o povo já comentava que ninguém iria ganhar de Zé Orobó. A expectativa era grande.

Véspera de São João, por volta das duas da tarde, ainda estava para encher os Busca-pés. Aproveitando um “olho de sol”, colocou a urupemba com a pólvora para levar mais um esquento, enquanto providenciava a limalha.

Possuía José Orobó uma cachorrinha que tinha aprontado umas com ele. Nas caçadas, em vez de trazer a caça abatida, ela a comia.

E ele, talvez adivinhando, dizia: “esta danada ainda vai fazer uma boa comigo…” E foi desta vez.

Enquanto preparava a limalha, sua mulher o chamou para raspar e comer o resto da canjica que ficara no tacho.

Nesse ínterim, a cadelinha aproximou-se da urupemba com pólvora e, parece que de propósito, comeu tudo.

Logo após, vai José Orobó apanhar a urupemba com a pólvora, nada encontrando. Concluiu de pronto que tinha sido “arte” da cachorrinha. Danado da vida, de espingarda em punho, procura daqui, procura dali, e nada de encontrar a bichinha. Ela era mesmo muito esperta.

de modo que acabou-se a alegria de José Orobó. Ao invés de provocar inveja, ia ser galhofado.

Triste, acabrunhado, mesmo assim teve ânimo para acender a fogueira, já preparada em frente da casa.

Gostava de milho verde assado na palha e logo que surgiram as brasas colocou uns milhos para assar.

Enquanto isso, dentro de casa, a pamonha já estava pronta e na mesa.

Os familiares procuravam acalmá-lo, fazendo-o guardar a espingarda.

Na mesa, as iguarias da época junina: canjica, pamonha, milho verde assado e cozido, bolos, pés-de-moleque, tapioca, queijo, manteiga de garrafa e vários tipos de carne. Por momentos, chegou a esquecer a cadela.

Enquanto se entretinham com as comedorias, novamente a vilã se aproveitando da ausência dos da casa e sentindo o cheiro forte do milho assado, aproximou-se demais da fogueira para abocanhar uma espiga, ainda meio chamuscada de pólvora, terminou pegando fogo, explodindo em seguida.

A explosão ecoou distante e foi tamanho o impacto que varreu do local a fogueira por completo.

José Orobó, que no momento da explosão ia chegando à porta, ainda pôde ver lenha e brasa voando para todos os lados e viu também a cachorrinha subir como uma bola de fogo e desaparecer nas alturas…

Apesar disso, sentiu-se de peito lavado.

Ainda hoje, desconfiado por tantas que a cachorrinha aprontou, teme que ela possa fazer uma última presepada… que os seus ossos um dia venham cair em cima dele…

 

 

 

Fonte: Livro Bom Jardim: Histórias e Folclore I Autor: Onildo Pereira Santos

2019-02-26T11:16:16+00:00 junho 22nd, 2019|Folclore|0 Comentários

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