Tempo de Eleição – Onildo Pereira Santos

São Pedro sempre importunava o Pai do Céu a fim de receber permissão para descer à terra, pelo menos, por uns três dias. Julgava-se merecedor de umas férias.

Tanto importunou que o Bom Deus atendeu ao seu pedido.

São Pedro aprontou a bagagem e desceu.

Chegou aqui em tempo de eleição. Tempo bom: transporte gratuito para toda parte, festas, danças diversas, muita comida, alegria geral, animação jamais vista. Era rico rindo à toa, todos os dentes à mostra. Tempo de muitas tapinhas nas costas, muitas promessas de emprego. Os candidatos pacientemente atendendo a tudo que se pedia. Dinheiro não faltava. Óculos para quem sofria da visão. Dentaduras para os sem-dentes. Remédio para os doentes. Documentos para todos. E os candidatos sempre de braços abertos, no meio do povo.

São Pedro gostou de mais de tudo aquilo. Foram três dias inesquecíveis. Chegou ao Céu, de volta, atrasado, já passando da hora. Até levou um bom pito do Senhor Deus.

“- Pela demora, deve ter sido tudo muito bom por lá, não Pedro?”

“- Ah Senhor! Foi tudo maravilhoso! Gostaria de ganhar outras férias e desta vez de pelo menos um mês!

“- Pois não, Pedro, se você gostou tanto assim, de hoje há um ano você vai voltar, agora tem muito o que fazer por aqui”, disse o Senhor.

De água na boca, São Pedro contava os dias, enquanto aguardava as próximas férias…

Na época prevista, um ano depois, São Pedro retorna à terra. O tempo das eleições já ia longe. Desceu sobre uma estrada de rodagem no momento em que trafegava em disparada um dos ex-candidatos quase o atropelando, sem falar nos palavrões que proferiu.

Procurou festas e não encontrou nada. Notou também ter acabado a alegria contagiante do povo. Os candidatos sumiram e o povo estava entregue ao Deus dará.

Dinheiro, óculos, medicamentos, dentaduras, transporte, documentos, tudo era negado. Quem estivesse sem dinheiro, que continuasse liso. Quem adoecesse, que morresse à míngua, sem remédio. Quem estivesse com vista curta, que levasse topada, ou até cegasse. Quem não tivesse dentes, comesse mingau. Quem não tivesse documentos, que fosse preso. Em vez de batidinha nas costas, os eleitores levavam era tapas mesmo…

São Pedro chegou a observar os antigos candidatos, agora eleitos, Portanto armas e cercados de capangas armados para que ninguém se aproximasse.

Aquele tempo bom onde tudo eram flores, tudo fácil, muitos sorrisos, já ia longe, muito longe, já era! 

São Pedro entendeu logo que não dava para ficar muito tempo por aqui e logo deu no pé, apressado, de retorno para o Céu. No mesmo dia estava de volta, triste e decepcionado com tudo o que viu.

“- O que houve, Pedro?”, indagou o Pai do Céu, surpreso.

“- Pra nunca mais, Senhor! Pra nunca mais!” Foi a resposta.

 

 

Fonte: Livro Bom Jardim: Histórias e Folclore I Autor: Onildo Pereira Santos

2018-11-07T13:41:05+00:00 janeiro 2nd, 2019|Folclore|0 Comentários

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