ZÉ LOPES

MESTRE ZÉ LOPES

O pai, tratorista, acalentou o sonho de ver o filho engenheiro formado, mas a vida e a paixão levaram José Lopes da Silva Filho, o mestre Zé Lopes, ao mundo dos brincantes, do teatro de mamulengos, onde é referência, símbolo de resistência e um dos mais antigos ainda em atividade – o que lhe assegurou o reconhecimento pelo Governo do Estado como Patrimônio Vivo de Pernambuco, em 2016.

Mestre Zé Lopes nasceu no dia 21 de outubro de 1950, no Sítio Cortesia, em Glória do Goitá, município da Zona da Mata Norte pernambucana. Sua história com os bonecos teve início na infância quando acompanhava a mãe, Severina Pereira, em suas vendas de bolo nas apresentações de mamulengo e cavalo marinho que aconteciam na cidade. A primeira vez que o menino de comportamento retraído viu os tais bonecos, acreditou serem pessoas pequenas. Puro encantamento diante de um mundo de brinquedos/atores manipulados que dançavam, cantavam e arrancavam risadas do público.

Aos 12 anos de idade, Zé Lopes já andava às voltas com madeiras para criar os próprios mamulengos. O primeiro, o Caroquinha (Mateus), seguido do policial, Simão e sua mãe, o coronel, Quitéria….Confeccionou 12 ao todo com roupas garantidas pelo tecido comprado por dona Severina, que também rejeitava a ideia de ver o filho mamulengueiro. “Lembro que se aproximava do final de ano e ela perguntou se eu queria tecido para uma roupa nova ou para vestir os bonecos e, claro, que não pensei duas vezes”, recorda.

Ainda em 1962, ao lado do mamulengueiro Zé di Vina e dos tios Zé e Chico de Teca, José Lopes começou a se apresentar com o Mamulengo São José, o mundo encantado dos bonecos. Aos 18 anos, por pressão da mãe, seguiu para Recife, onde trabalhou em uma serraria, deixando o teatro de bonecos apenas para os fins de semana. Em 1971 partiu rumo a São Paulo em busca de trabalho. Lá foi vigia, metalúrgico, entre outras ocupações, mas nunca deixou para trás a grande paixão. “Cheguei a fazer cinco bonecos para brincar porque o mamulengo vivia dentro de mim”, assegura Zé Lopes, que ao longo de sua vida conviveu com outros grandes mestres, como João Nazário, Zé Grande, Severino da Cocada, Zé de Vina, Solon, entre outros.

Em 1982, o artesão toma a decisão de fazer o caminho de volta. Vendeu propriedade e tudo o que conquistou em São Paulo para retornar à Glória do Goitá. “Voltei para salvar o mamulengo do esquecimento. As apresentações estavam proibidas por causa brigas políticas e a falta de apoio fez com que os mamulengueiros deixassem de brincar. Chegando aqui, a primeira coisa que fiz depois de deixar as malas no chão foi correr para a mata em busca de madeira”, relembra. Em missão de convencimento, Zé Lopes procurou o prefeito da época e buscou antigos mamulengueiros. No dia 02 de dezembro daquele ano, durante as festividades em homenagem à Nossa Senhora da Conceição no município, ele apresentou o seu Mamulengo Teatro do Riso ao lado de outros mestres.

Desde então, o artesão vem levando o teatro de bonecos em apresentações e oficinas pelo Brasil e exterior. Através do Sesi Bonecos do Mundo, já esteve em nove estados e países como França, Itália, Espanha. Repassa também o conhecimento adquirido pelo amor aos brincantes para as crianças atendidas pelo Programa de Erradicação Infantil (Peti), porque acredita que, antes de tudo, o mamulengo é um poderoso instrumento de transformação social . “Meu sonho é escrever um livro ou produzir um filme registrando a minha história e a do mamulengo para aplicar nas visitas às escol

as”, revela o mestre com mais de meio século de contribuições para a cultura popular.

Atualmente o Teatro do Riso é mantido por Zé Lopes, sua mulher Neide, as filhas Cirleide Lopes (Cida Lopes), Larissa Nascimento e a netinha Julia, que aos 8 anos de idade já começa a dar os primeiros passos na arte mamulengueira. Em sua casa em Glória do Goitá, ele recorre a utensílios simples, como facas e chaves de fendas, na confecção dos bonecos em um trabalho que requer tempo, paciência e zelo. “É uma sensação única pegar a matéria bruta e transformá-la em um boneco, um filho, que nas mãos ganha vida ao incorporar um personagem”, assegura o mestre que influenciou e ajudou na formação de inúmeros artistas populares.

Mestre Zé Lopes participa da Feira Nacional de Negócios do Artesanato (Fenearte) desde a sua primeira edição. Em 2016, por suas inúmeras contribuições para a cultura foi também agraciado com o Prêmio Teatro de Bonecos Popular do Nordeste – Mamulengo, Cassimiro Coco, Babau e João Redondo (Iphan) e com o Prêmio Ariano Suassuna de Cultura Popular e Dramaturgia (Secretaria de Cultura de Pernambuco).

Contatos:

Endereço: Rua Queceque, 261, Nova Glória, Glória do Goitá

Telefone: 81. 9.9760.3451

Texto: Roziane Fernandes l Fotos e vídeo: César de Almeida

2018-09-25T10:32:09+00:00 julho 10th, 2018|Artistas de A a Z, Z|0 Comentários

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